quarta-feira, 14 de maio de 2014

PEDAGOGIA DA PESQUISA

Entrevista

Pedro Demo | Alexandre Marcos Lourenço Barbosa
  O Lince – Por que "Educar pela pesquisa"?

  Pedro Demo – Porque pesquisa é fundamento docente e discente. Por trás estão teorias da aprendizagem que reforçam a autoria e autonomia do aprendiz e evitam o reprodutivismo.

   No Brasil impera o “instrucionismo”, em especial o apreço exagerado pela aula expositiva, feita por professores que não possuem produção própria. O que faz um professor não é aula, mas autoria.

  O Lince – O senhor coloca a pesquisa como princípio didático. Que condições precisam estar presentes na escola para que a pesquisa se transforme em orientadora do trabalho docente e discente?

  Pedro Demo – A primeira condição é um professor bem formado, pesquisador, autor, sustentado sempre por processos de formação permanente de boa qualidade.

  Quando a escola não tem preparação adequada, agarra-se às aulas, repassando conteúdos. Os dados do MEC mostram claramente que esta didática não leva à aprendizagem. Para aprender bem, duas coisas são imprescindíveis: pesquisar e elaborar. Aula é coisa secundária, supletiva, auxiliar.

  O Lince – Como a pesquisa poderia estar presente nas séries iniciais do Ensino Fundamental?

  Pedro Demo – Como dizia Piaget, toda criança é um tremendo pesquisador (curiosa, indagadora, experimentadora, interessada), mas, na escola é sobretudo “disciplinada”. O grande desafio é ter um professor que saiba pesquisar e saiba fazer o aluno pesquisar. Em geral, o professor só “sabe” dar aula.

  O Lince – No Brasil, é de seu conhecimento a existência de políticas de formação docente voltadas para a qualificação do professor como pesquisador?

  Pedro Demo – Toda universidade que se entende como universidade de pesquisa (as federais, muitas estaduais, algumas privadas, católicas, por exemplo) praticaria um tipo de docência inspirado na pesquisa. Assim, isto não seria tão extemporâneo.
  Ocorre que também nas universidades persiste a prática da aula expositiva, em especial na pedagogia e que, por isso, é quase sempre o curso mais fraco. Nas instituições privadas, a tendência é encurtar os cursos (para menos de três anos), e isto impossibilita a formação de docentes adequados. Aí, então, só resta dar aula.

  O Lince – Há algum resultado demonstrado que justifique a presença da "pesquisa" na escola?

  Pedro Demo – O resultado melhor demonstrado é a constatação constante de que o aluno aprende melhor com professor que aprende bem. Primeiro, o professor só poderia dar aula daquilo que produz. Se nada produz, não tem aula (ou será apenas reprodutiva). Segundo, sendo autor, poderia impulsionar a idéia da autoria no aluno. Quanto a dados disponíveis, os mais claros são os que mostram o contrário: se olhar o Saeb, verá que, a cada ano, o desempenho escolar cai, desde pelo menos 1995, mostrando que o instrucionismo não aponta para nenhuma solução.

  Em 1997 o ano letivo foi alargado para 200 dias e nada aconteceu. Ao contrário, em 1999 ocorreu uma queda estapafúrdia de desempenho (17 pontos em língua portuguesa e quase dez pontos em matemática). Por isso, pesquisar e elaborar não é opção, expectativa, mas necessidade crucial. Não pode haver professor que não seja autor. Caso contrário, só vai dar aula.

Pedro Demo é professor titular de Sociologia da Universidade de Brasília, desde 1982. Obteve o título de doutor em Sociologia, na Alemanha, em 1971, com a tese Herrschaft und Geschichte – Zur politischen Gesellschaftstheorie Freyers und Marcuses. Fez seus estudos pós-doutorais na Universität Erlangen-Nürnberg (Nürnberg, Alemanha) e na University of California at Los Angeles (UCLA). Tem 75 livros publicados, muitos deles dedicados à educação, entre os quais: “Aposta no professor: cuidar de viver e de trabalhar com dignidade” ; “Formação docente e tecnologias educacionais” ; “Auto-ajuda: uma sociologia da ingenuidade como condição humana” ; “Metodologia da investigação em Educação” e “Conhecer a aprender”. Além da experiência acadêmica, acumulou larga experiência e conhecimento trabalhando em órgãos públicos, como o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada do Ministério do Planejamento) e o Ministério da Educação. 

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